naoquerofalardesexo
Maria Nicanor

misfit toy

01.11 02.11 03.11 04.11 05.11 06.11 10.11 11.11 12.11 01.12 02.12 03.12 04.12 05.12 06.12 07.12 10.12 11.12 12.12 01.13 02.13 03.13 04.13 05.13 06.13 07.13 08.13 09.13 10.13 11.13 12.13 01.14 02.14 03.14 05.14 03.17

Follow Me
Facebook
Twitter

28 março 2014

"Pensei durante muito tempo que a escapatória deste labirinto era fingir que ele não existia, construir um mundo pequeno e auto-suficiente num canto obscuro do interminável labirinto e fingir que não me encontrava perdida, mas sim em casa. Mas isso só me levou a uma vida solitária e fiz asneira e ele escapou-me por entre os dedos. E não há maneira de adocicar a coisa: podíamos ter sido melhores um para o outro.. Porque irei esquecê-lo, sim. Aquilo que se uniu irá desmoronar-se com uma lentidão imperceptível, e eu irei esquecer, mas ele perdoará o meu esquecimento, tal como eu lhe perdoo por me ter esquecido a mim e à avó e a toda a gente menos a si mesmo e aos seus pesares naqueles últimos momentos que passou sob a forma de pessoa. Sei agora que ele me perdoa por ter sido fria e orgulhosa. Sei que ele me perdoa tal como eu o perdoo a ele. E eis a razão porque o sei: De inicio pensei que ele estava apenas morto. Somente trevas. Somente um corpo a ser engolido pela
terra, comido por larvas. Pensei muito nele dessa maneira, como a refeição de um bicho qualquer. O que era ele, em breve passaria a ser nada, apenas os ossos que eu nunca vi. Refleti no longo processo de se tornar apenas osso, de se transformar em fóssil e depois em carvão, que, daqui por milhões de anos, será extraído das minas por humanos do futuro, e no modo como estes irão aquecer as suas casas com ele, que depois se transformaria em fumo e ondularia para fora da chaminé revestindo a atmosfera. Por vezes ainda penso nisso, penso que talvez o "Além" seja apenas algo que inventamos para aliviar a dor da perda, para tornar suportável o nosso tempo no labirinto. Talvez ele fosse só matéria, e a matéria é reciclada. Mas em última análise, não acredito que ele fosse só matéria. O que resta dele também deve ser reciclado. Hoje em dia acredito que somos mais do que a soma das nossas partes. Se pegarmos no código genético do meu pai e lhe acrescentarmos as experiências de vida e as relações que teve com as pessoas, e depois lhe tomarmos o tamanho e a forma do corpo, não o obteremos a ele. Existe uma outra coisa, completamente diferente. Existe uma parte dele que é mais do que a soma das suas partes reconhecíveis. E essa parte tem de ir para algum lado, porque não pode ser destruído. Embora nunca ninguém me vá acusar de ter sido uma excelente aluna a ciências, uma coisa que aprendi nas aulas de Ciências é que a energia nunca se cria nem se destrói. E, se ele acabou com a sua própria vida, é essa a esperança que eu desejava poder ter-lhe dado. Perder o emprego, desiludir a família, não se sentir amado pela filha são coisas horríveis, mas ele não precisava de se virar para dentro e se autodestruir. É possível sobreviver a essas coisas horríveis, porque nós somos tão indestrutíveis como acreditamos ser. Quando os adultos dizem que "os adolescentes pensam que são invencíveis", com aquele sorriso matreiro e parvo no rosto, não sabem a razão que têm. Nunca precisamos de não ter remédio, porque nunca podemos estar irremediavelmente quebrados. Achamos que somos invencíveis porque somos. Não podemos nascer e não podemos morrer. Tal como toda a energia, apenas podemos mudar as formas, os tamanhos e as manifestações. Eles esquecem-se disso quando envelhecem. Ficam com medo de perder e de falhar. Por isso eu sei que ele me perdoa, tal como eu o perdoo a ele. As últimas palavras de Edison foram: "É tudo muito belo ali". Eu não sei onde fica "ali", mas sei que é algures, e espero que seja belo." adaptado
0 ♣


/