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Maria Nicanor

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20 fevereiro 2014


A casa estava fria, gélida das mortes que a acolhiam. A chuva corria lá fora, ávida e sem medo enquanto dentro de casa todos guardavam as lágrimas num coração agora oco, tentando poupar corações mais frágeis. Reunidos na saleta, tentavam-se puxar sorrisos e dentes desnudos de caras pálidas e tristes. E nós sorriamos, mas os sorrisos logo cessavam semeando o silêncio frio da mágoa; e eu sabia que estávamos todos a pensar nela, neles; mortos, frios e sem poder sorrir. Não eram mais eles. A ideia de eles não existirem mais, ainda me atordoava sempre que pensava nas suas faces queridas. Mas eles apodreciam naquele cemitério tão perto e tão longe. Os seus corpos estavam lá, mas eles não estavam em lado algum. No enterro, católico, as pessoas clamavam "Estão com Deus agora, estão melhor e felizes" ou "Agora, estão lá a olhar por vós, juntos" e eu acenava o caco e falava-lhes como quem sente ser verdade universal o que proclamam. Mas eu não creio nisso. As pessoas, refleti, querem segurança, algo que lhes sossegue o seu perfeito coração e lhes acalme a consciência. Não conseguem suportar a ideia da morte ser um vazio, um nada glacial. Não conseguem tolerar que as pessoas que amam não mais existam, não conseguem tolerar que eles próprios deixem de existir. De olhos enevoados, vendo tantos olhos chorosos à minha volta percebi, as pessoas acreditavam numa vida para lá da morte porque não suportavam não o fazer.
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